Thiago Silva

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HQ

Pensei quando criança que seria herói,
Mas cansei de tentar,
Eles são tão egoicos quanto os vilões,
Só muda a clareza das intenções.

Fotos falsas e sorrisos montados,
Não comi e me deu vontade de vomitar.
Talvez essa nuvem densa e cinza
Esteja perto de transbordar.

Na tentativa de ser vil,
Os fios tênues da moral
Me enroscam e fazem despencar.

Conquistar meu espaço.

Que espaço?
Compro mais um maço,
Fumo em dois dias.
Só entendo o que me confunde,
O resto me trás agonia.

A fumaça é cósmica. Transparece
O pouco
Do nada
Que sou.

Thiago Barbosa

Ausência

De dentro da casa sem janelas
O sol reluz tão forte,
Que quase reflete na pele,
Quase te aquece.

Cotidiano transforma as vezes
Pessoas amadas em objetos inanimados,
Que passamos desapercebidos.
Mas saudade é cheia de movimento,
Vida, até cheiro ela tem.

São quinze minutos de
Movimentos repetitivos,
E prazer primitivo.
As horas restantes do dia
Que são sexo,
No flerte faz residência.

São tantas palavras soltas,
Que só o que escuto é silêncio.
Mistério é todo estruturado
Por verbos
Dos mais desconhecidos.

Presta atenção
Querido, na ausência,
Ela é intangível,
Irreal, dolorida,
Mas mais real que quase tudo.

Thiago Silva

Alvorada

Com aquele silêncio ou dormia ou aprontava alguma… Eu, que me ocupava em preparar nosso almoço de sábado, capturo o momento quando decido checar se está tudo bem: Sozinha na sala você rola de um canto para o outro do sofá, apoia a cabeça na almofada, fica de bumbum pra cima e quando menos se espera deixa pender seu corpo de marshmallow para direita, ri a gargalhada mais sincera por simplesmente cair daquele jeito engraçado, acabo por rir mais que você, de saudade dessa naturalidade, e de querer que você seja assim feliz pra sempre.

Levo arroz, cenoura ralada, feijão, frango grelhado e alface, no seu pratinho azul de personagem. Te peço para fazer perna de índio, mas você não para, só aquieta quando ligo a tevê no seu desenho preferido, eu prefiro comer na mesa, mas fazer o que? Deixo a almofada como mesa de apoio no seu colo e te sirvo o almoço. Vou buscar meu prato na cozinha e quando volto você está analisando a alface: levanta a folha com a mão e deixa bem pertinho do olho (talvez você tenha gostado da cor, entendo pois o verde também me atrai), curiosa você vira um pouco o rosto e a pose te deixa com as bochechas ainda mais fofas; bota a língua pra fora e lambe a alface, parece o filhote de algum bichinho, te lembro que aquilo é de morder e mastigar, quando você segue o conselho olha pra mim e aprova seriamente com a cabeça, como uma pequena sommelier de saladas. Me oferece e eu te mostro que tenho folhas iguais no meu prato.

Passamos a tarde chuvosa nessas movimentações, a gente se abraça, se aperta. Você briga comigo porque não decoro o nome das suas bonecas e sempre as chamo pelo nome errado, eu brigo com você porque não me deixa acabar o último episódio da série, grita e corre pela casa, como um ser humaninho sem civilização, ai sobe em cima de mim e tampa minha visão com a manta azul. Você acha graça da minha irritação, e eu acho graça do seu tamaninho, que não combina nem um pouco com a audácia.

Na hora de dormir não me deixa virar para o outro lado, gosta de dormir juntinho, e me ensinou a gostar também. De vez em quando pede pra eu passar um tempo fazendo carinho no seu rosto com seu paninho de sempre, bem na parte do olho, até o sono vir. Tem que ser do seu jeito, exige o cálculo preciso de cada parte do carinho, me orgulho de ser o único a saber tal cálculo.

Você, bichinho, como alvorada ilumina meus caminhos tão sem vida, e eu como escolhido do universo guio seus primeiros caminhos. Te protejo do escuro e você me mostra de onde vem os pequenos fachos de luz de esperança e verdade. Sou grato por te ter ao meu lado.

Thiago Silva

Desalento móvel

Na rua Oscar Freire
Eles batem as portas,
E de súbito descobrem o verbo
Constrangido, do silêncio.
Ele acelera,
E ela olha os manequins.
É dolorido o momento
Que o meio do caminho,
É o fim.

Thiago Silva

Esquizofrenia

Ontem foi meu trigésimo terceiro aniversário, a imagem de amigos palhaço dos anos anteriores foi substituída por apenas um sorriso falso, esboçado com o esforço de dois guindastes, um de cada lado do rosto. Amo os que fizeram questão de vir, e o desespero de retribuir os carinhos me sufoca ainda mais. Acaba a comemoração e eu sou empurrado para o quarto de sempre, meu mais atual sombroso lar (na fronha de microfibra tentam se esconder as lagrimas).

Faço sofrer minhas filhas e minha mulher, as que fazem parte do meu cotidiano. Antes era a faísca de nós quatro, o que não deixava ninguém dormir sem beijo, e sábado, fazia bagunça de chocolate e açúcar, levava sorrisos na forma de bolo para mesa de centro da sala de estar. Minha arte agora é estética pelos anos de prática, mas não diz nada, trabalho por sobrevivência, não minha, mas da minha família, sou agora figurante, sou minha falta.

Na tentativa de justificar esse esgotamento falo agora sobre do meu dia pós-aniversário, que pouco se diferencia de todos esses últimos:

Acordo sem despertador, cansado, moído. Ainda de olhos entreabertos adoço meu café com quatro gotas de adoçante. Casa vazia, todas saíram aos seus devidos compromissos: escola, trabalho, escola. Coloco uma calça e o primeiro tênis que encontro, a camiseta é a mesma do dia anterior. Me apresso em direção ao carro e ouço novamente aquela voz, rouca e úmida de proximidade com a orelha esquerda, diz irônica: “você é inútil, seu terceiro atraso na semana cai muito bem para um quarta-feira.” Ri.

Paro no quarto farol do percurso para o trabalho, pedestres atravessam a faixa e me fitam a alma. Vejo um ponto de ônibus do lado e quem nele está sentado é meu avô, que só conheci por fotos, de longe ele me chama com a mão, terrivelmente calmo. No choque do momento desvio o olhar para frente e amasso o volante com as duas mãos, o suor desce da testa e goteja na camiseta branca amassada. Quando o farol abre acelero tanto que faço cantar o pneu, tento desviar dos carros, sem sucesso fecho as janelas, decido ligar o ar condicionado na temperatura mais baixa possível e tocar qualquer música da playlist no último volume, desejando que o caos traga qualquer resquício de silêncio em mim.

Chego ao trabalho e meu primeiro destino é o banheiro; lavo minhas mãos e jogo água no rosto, levanto e fixo os olhos no espelho. Pareço 15 anos mais velho, as olheiras profundas parecem dois socos, minha pele é amarelada e fosca. Passo mais de um minuto nessa autoanálise, a voz acusa o quanto sou feio, e me diz coisas horríveis. Eles novamente me filmam do alto, e tolos, acreditam que não vou perceber, entendo qual é a deles e finjo que não.

No decorrer do dia me torno meu trabalho, produzo cada dia mais, o que de certa forma compensa meus atrasos e minha falta de sociabilidade. Quando erro algum traço sinto que meus colegas me observam e riem, me encurvo tentando esconder, trabalho mais, e mais. As cores da tela do computador, os e-mails, os rápidos movimentos com o mouse e teclado são sincrônicos, sou um robô programado para a função. A utilidade do trabalho é completamente oposta do que sempre foi. Me tornei comercial e mecânico, me falta coragem para qualquer tentativa de contato comigo mesmo.

No horário do almoço não sinto fome, então vou ao café mais próximo. De vez em quando a voz é personificada, em diferentes formas, descubro quem é pelo timbre inconfundível e pela aleatoriedade da aparição. Procuro lugar próximo as janelas, me acomodo e poucos minutos depois uma mulher de cabelo curto se senta na mesma mesa que eu, quieta. Ela começa a falar, e eu a tentar de qualquer forma ignora-la. Me diz que de hoje não passo, me lembra que sou estorvo, e o que me diferencia de um morto é só o sofrimento dos outros que permito continuar. Decido escrever cartas. O garçom que sempre fora amável e conversador, parecia me olhar com raiva, talvez até com intenção de me agredir, tremo por dentro, faço o pedido e logo abaixo a cabeça de volta a minha tarefa, tento não encarar, quando o café chega peço que ele, por favor, não me incomode mais. Escrevo as cartas com fluência, como se tivessem prontas em algum lugar da minha memória. Voltando ao trabalho percebo dois rapazes me perseguindo, serão eles novamente? Mandaram gente agora? Como sempre, finjo que não vejo, entro na próxima esquina e começo a correr, só paro quando meus óculos pulam do rosto para o chão, quando abaixo para pega-lo vejo que consegui fugir e quebrar a lente esquerda.

Perto das 16 horas meus olhos embaçam, preciso dos óculos, me lembro da fuga e me ocorre o entendimento da proporção disso tudo, outros procurariam ajuda, mas eu já conheço o caminho. Passo meus dias com medo, aflito, aos poucos perco minha sanidade e a capacidade de diferenciar o real da ilusão, ainda tenho estalos como esse, mas quanto mais o tempo passa mais o medo se torna tóxico, e menos tenho vontade de sair da cama. Entendo que é só um começo de uma jornada horrível, não aguentaria uma vida sedado numa cama conversando comigo mesmo, sem controle nenhum dos meus próprios movimentos. Não aguentaria o eterno isolamento, e tenho pavor de pensar na possibilidade de fazer mal a alguém que amo, penso principalmente nas memórias que deixaria para minhas duas pequenas.

Já se passaram duas horas do meu horário, me perdi no tempo escrevendo, tenho as cartas prontas e talvez saiba a saída, preciso apagar esse arquivo e desligar o computador. Preciso ir.

Thiago Silva